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  • Hoje celebrámos o Dia Mundial da Saúde Mental

    Hoje celebrámos o Dia Mundial da Saúde Mental

    O Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa celebrou hoje o dia mundial da saúde mental convidando a descobrir o nosso parque com várias atividades. Foram criados vários “pontos mentais” de sensibilização para a saúde mental, distribuídos pelo CHPL, onde os participantes da atividade plogging (atividade que combina o exercício físico a recolha de lixo durante o trajeto) se podiam envolver. O Núcleo de Literacia esteve presente para partilhar o seu propósito como ferramenta de combate ao estigma contra pessoas com experiência de doença mental, nomeadamente dando a conhecer, e permitindo o acesso, a este nosso saudemental.pt.

  • Fomos todos juntos à Terapia, no SANATORIUM do MAAT

    Fomos todos juntos à Terapia, no SANATORIUM do MAAT

    O Sanatorium é uma instalação  performativa artística do artista Pedro Reyes em que  a arte e a psicologia se entrelaçam, no ambiente de uma clínica, com consultório e terapeutas de bata branca.

    Combina várias técnicas artísticas e psicoterapêuticas de forma a criar uma experiências de encontro, diálogo, partilha e descoberta.

    A equipa saudemental.pt foi ao MAAT submeter-se a estas terapias. Experimentámos três das modalidades disponíveis:

    • Casino Filosófico, em que cada um colocou uma questão como ‘Qual o sentido da vida? Devo adoptar outro cão? Pode existir revolução sem violência?” a um oráculo que tomava a forma de dados com frases de filósofos de diferentes inspirações. Para cada pergunta girámos o dado e obtivemos respostas surpreendentes!
    • Mirroring – um líder executa uma série de movimentos espontâneos para expressar o que está a sentir e o resto do grupo é conduzido: replica os movimentos do líder e tentar imaginar o que este está a sentir. Descalços e leves, soltámos muitas gargalhadas entre passos de dança e gestos desajeitados!
    • Mudras são gestos simbólicos que se podem fazer com o corpo ou mais tipicamente com as mãos/pontas dos dedos, usados em algumas práticas religiosas. Nesta terapia praticámos alguns mudras e, seguidamente, cada elemento do grupo criou um mudra só seu, manifestando uma intenção para a sua vida e partilhando-a com os outros.

    Querem saber o que achámos?

    Gostava que o Sanatorium fosse uma espécie de ginásio de bairro onde pudesse ir com regularidade, para trabalhar a minha saúde mental de forma divertida e descomplicada. A nossa terapeuta Maria Inês encarnou verdadeiramente o papel e tornou a experiência ainda mais terapêutica. A repetir num futuro próximo!

    Aceitei o convite de ir a esta exposição sem saber o que esperar e cheguei ao final da experiência incrivelmente surpreendida. Apesar de ao inicio nos ser dito que as atividades não constituem “verdadeiras terapias” e que são levadas a cabo por “pessoas comuns” elas são verdadeiramente terapêuticas. Por um lado, proporcionam-nos momentos de reflexão, em que deixamos as nossas preocupações triviais de lado e voltamos a debruçar-nos sobre as questões que realmente importam, e que são abafadas pelo ritmo frenético do nosso dia-a-dia. Por outro, promovem também momentos de encontro e de aproximação com o outro, através da exposição e partilha de objetivos, dúvidas, fragilidades e receios, como é exemplo o medo do ridículo. Iniciativas como esta são bastante relevantes para a promoção da saúde mental, pelo que recomendo a todos esta experiência.

    Uma exposição que transmite a noção fundamental de que cada um pode ter um papel activo na sua saúde mental e encontrar as “terapias” que melhor funcionam consigo. Assim, a arte surge como ferramenta empodera quem passa pela experiência e como contributo para a saúde pública mental.

    3 aspectos que me agradaram mais: tratar-se de um espaço de reflexão e partilha localizado num grande centro urbano é representativo do desafio que o próprio projecto propõe; o jogo como facilitador de pensarmos mais sobre nós e sobre os outros; ser assumidamente conduzido por não profissionais significando que cada um de nós enquanto Comunidade pode ter um papel activo na promoção do nosso bem-estar e dos outros

    Adorei a experiência do Sanatorium. O facto de haver um setting clínico com “terapias” que provocam cada participante a pensar no que o define e que é importante para si faz com que este seja um espaço rico na partilha e descoberta.

    A parte mais gratificante para mim foi ter-me apercebido durante a experiência a maioria de nós (profissionais na área de saúde mental ou não) questiona e procura as mesmas coisas.

    Têm até 20 de Setembro para visitar o Sanatorium e experimentarem estas terapias!

    Se lá forem contem-nos como foi a vossa experiência através das redes sociais – Instagram e Facebook e passem por lá para verem conteúdos novos!

  • É ok não estar ok

    É ok não estar ok

    Estudos sugerem que as perturbações da saúde mental podem afetar até cerca de 35% dos atletas de elite a certo ponto da sua carreira. Estas podem ir de burnout a uso de substâncias ou perturbações alimentares, depressão ou ansiedade.

    Já após os Jogos Olímpicos de Londres em 2012, Michael Phelps, conhecido nadador americano, revelou a sua luta interna com a depressão, pensamentos suicidários e consumo de álcool e outras substâncias. Durante esta semana, em Tóquio e cerca de 9 anos depois, Simone Biles, ginasta americana, reivindicou o seu direito de colocar a saúde mental em primeiro lugar, de se priorizar em detrimento de uma medalha ou de uma pontuação. A tenista japonesa Naomi Osaka fez algo semelhante quando desistiu da sua participação no Open francês, admitindo também que não estava preparada para Tóquio. Sha’Carri Richardson, suspensa pelo uso de canabinóides, revelou que o fez numa tentativa de tentar lidar com a dor da morte recente da sua mãe e com a pressão da prova de 100 metros. Liz Cambage, uma jogadora da WNBA que compete pela Austrália abordou a enorme angústia e ansiedade causadas pela “bolha” de Tóquio, criada devido às restrições impostas pela pandemia de COVID-19. Em Portugal, o judoca Célio Dias partilhou detalhes acerca da sua depressão e tentativas de suicídio após um combate nos Jogos Olímpicos de 2016, tendo sido diagnosticado com esquizofrenia dois anos mais tarde.

    As próprias características de uma competição como os Jogos Olímpicos, dotados de uma enorme pressão e expectativas que são depositadas num único atleta, não só para ultrapassar e vencer as restantes nações, mas para se superar a si próprio após quatro anos de treino intensivo, são suficientes para despoletar questões de saúde mental.

    Num ambiente que premeia o ou a melhor, que almeja a perfeição, deixa de haver, muitas vezes, espaço para a (falsa) perceção de fraqueza associada à doença mental.

    Para abordar de forma adequada a questão da saúde mental no desporto de elite (e não só) será necessário continuar a chamar a atenção para o assunto, discuti-lo extensivamente, sem tabus e, preferencialmente, sem o estigma normalmente associado à doença mental.

    É fundamental deixar claro que a saúde mental deve ser abordada e discutida, não só por profissionais de saúde, mas pelo público em geral, desde que de maneira informada e construtiva.

    É urgente entender que discutir quer a saúde quer a doença mental nos fortalece, ao invés de enfraquecer; que só revelando as nossas vulnerabilidades e conhecendo os nossos próprios limites podemos verdadeiramente desabrochar, ajudando-nos a nós próprios e, assim, ajudando outros.

    Por Carolina Rodrigues, Mulher cis, médica interna de Psiquiatria, apaixonada por conversas longas e desapressadas

  • SERVIÇOS COM APOIO EM PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL A REFUGIADOS OU MIGRANTES

    SERVIÇOS COM APOIO EM PSIQUIATRIA E SAÚDE MENTAL A REFUGIADOS OU MIGRANTES

    Em Portugal, de acordo com a DGS não são permitidas quaisquer barreiras administrativas a migrantes ou refugiados de acesso aos cuidados do SNS. Não obstante, apresentamos algumas instituições que fornecem apoio sob a forma de consultas de psicologia e/ou psiquiatria em específico a migrantes e refugiados, ou que poderão ajudar a encaminhar para as mesmas:

    Serviço Jesuíta aos Refugiados – Consultas de psicologia e psiquiatria a refugiados

     jrs@jrsportugal.pt 

    Rua Rogério de Moura, Lote 59, Lisboa.

    Plataforma de Apoio aos Refugiados (PAR) 

    PAR@JRSPORTUGAL.PT 

    ISPA – Consultas de psicologia a migrantes e refugiados

    clinica@ispa.pt

    Rua Jardim do Tabaco nº34, 1149-041 Lisboa.

    Centro das Taipas – Consultas de Psiquiatria para refugiados

    ud.centrotaipas@arslvt.min-saude.pt

    Parque de Saúde de Lisboa, Avenida do Brasil 53, Pavilhão 27 1º andar.

    Associação CRESCER – Projeto NO BORDER

    info@crescer.org 

    Bairro Qta Cabrinha 3, Lisboa.

    Refugees Welcome Portugal

    porto@refugees-welcome.pt 

    Rua de Justino Teixeira nº 861 (Campanhã), Porto.

    MEERU | Abrir Caminho – projecto MEERU Aproxima

     abrircaminho@meeru.org 

    Pr. Doutor Francisco Sá Carneiro, 271 Galerias 1ºDto, Porto.

    CEPAC – Centro Padre Alves Correia

    geral@cepac.pt

    Rua de Santo Amaro, nº 43, Lisboa

    Outros links úteis

    Manual de Apoio a Migrantes do Centro Hospitalar Universitário de Coimbra (inclui versão traduzida para ucraniano)

    https://www.chuc.min-saude.pt/paginas/informacoes/ao-cidadao-utente/apoio-a-migrantes.php

    Guias informativos sobre acesso e cuidados de saúde para pessoas migrantes do Projecto Informa em Acção da Casa do Brasil de Lisboa – disponíveis em 6 línguas (português, inglês, francês, nepali, bengali e mandarim)https://casadobrasildelisboa.pt/projeto-informa-em-acao-lanca-guias-informativos-na-area-da-saude-em-6-linguas/

  • SAÚDE MENTAL NA POPULAÇÃO MIGRANTE

    SAÚDE MENTAL NA POPULAÇÃO MIGRANTE

    A migração é um processo que ocorre desde os primórdios da humanidade, e que se define por uma mudança na localização do local de residência de um indivíduo por qualquer período de tempo. Segundo a UNESCO, um migrante é qualquer pessoa que vive temporária ou permanentemente num país onde não tenha nascido, e que adquiriu laços sociais significativos com este país. Várias razões podem influenciar e motivar a migração, tais como a procura de melhores condições económicas ou educacionais, ou fatores políticos que levem as pessoas a serem excluídas ou mesmo perseguidas na sua cultura original.

    Quando uma pessoa se vê forçada a abandonar o seu país de origem, não podendo regressar devido ao risco  de ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, pertença a determinado grupo social ou opinião política, esse alguém pode ser considerado refugiado. De acordo com as Nações Unidas, em 2017 existiam 25,4 milhões de pessoas refugiadas, sendo uma das principais causas a fuga a guerras ou violência. Segundo o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), em 2019 houve uma subida de 45% nos pedidos de proteção internacional em Portugal face ao ano anterior.

    O processo de migração é constituído por diferentes fases, nas quais podemos encontrar diferentes fatores de vulnerabilidade que podem ter impacto na saúde mental.

    • Fase pré-migração: período anterior à migração que engloba a decisão de migrar e a sua preparação. Aqui podemos encontrar os fatores de vulnerabilidade para doença mental comuns a qualquer população (genéticos, pessoais, ambientais), mas também fatores dependentes da experiência individual, que pode envolver vivências traumáticas induzidas por guerra, perseguição ou violência.
    • Fase migratória: Deslocação propriamente dita de um local para outro, por vezes de forma não planeada e até associada a riscos para a própria vida do migrante. A incerteza, isolamento e perda súbita de suporte social e recursos são fatores que podem também estar presentes.
    • Fase pós-migratória: Ajustamento ao enquadramento social, político, económico e cultural de uma nova sociedade. Nesta fase, a pessoa pode deparar-se com várias adversidades sociais – discriminação, segregação, barreiras à comunicação, baixo suporte e isolamento social, ausência de alojamento – e económicas – desemprego, baixo rendimento – que são geradores de stress e de sentimentos de frustração e desilusão. O desenraizamento da cultura original e a perda dos seus rituais, ideias, locais e pessoas pode levar a sentimentos de perda, mesmo até da própria identidade, originando reações de luto.

    Doença Mental na população migrante

    A acumulação destes elementos ao longo do tempo traduz uma fonte contínua e cumulativa de stress, um dano migratório, que pode ser suficientemente forte para causar um desequilíbrio mental. De facto, os migrantes têm maior probabilidade do que a população em geral de ter uma doença mental – e este risco mantém-se elevado nos seus descendentes. Os refugiados são provavelmente o grupo de migrantes mais vulnerável, pela maior carga de stress vivenciada.

    Nos migrantes há um risco aumentado de psicose comparativamente com a população não migrante. Ao longo das últimas décadas, foram levantadas várias hipóteses para explicar este fenómeno e surgiram alguns mitos. Atualmente, considera-se que o mais provável seja existir uma conjugação de vários fatores onde a predisposição genética de cada um vai ser potenciada e modelada pelas circunstâncias das fases pré migratória, migratória e pós migratória.  Quanto mais sujeita a pessoa tiver sido a eventos adversos de vida e quanto mais desenraizada e isolada estiver, maior o risco. Assim, não surpreende que nos refugiados este risco seja ainda maior, dado tratar-se de uma deslocação forçada, não planeada, onde o tempo de espera por asilo pode ser significativo. E, como já referido, as consequências da migração e a predisposição genética vão continuar a ter influência na geração seguinte.

    Nos migrantes, e neste caso de forma ainda mais expressiva nos refugiados, existe ainda um risco aumentado de ansiedade, depressão e stress-pós-traumático. Na depressão, as adversidades pós migratórias são particularmente importantes. Já no caso do stress pós-traumático, são, de um modo geral, mais relevantes os fatores pré migratórios e migratórios, sendo esta patologia mais provável de ser encontrada em pessoas que se viram obrigadas a fugir de conflitos bélicos. 

    A prevalência destas doenças é maior nas fases mais tardias do processo de migração, e é amplamente dependente das várias adversidades encontradas na fase de pós-migração e na integração na nova cultura. Muitos destes factores de vulnerabilidade são potencialmente modificáveis, através de medidas políticas e sociais que visam a integração, diminuição do isolamento social e melhoria das condições socio-económicas. De facto, a prevalência tende a reduzir com o tempo – caso as circunstâncias de vida dos migrantes, de facto, melhorem.

    Acesso aos cuidados de Saúde:

    Apesar da maior prevalência, sabe-se que o acesso aos cuidados de saúde fica muito aquém das necessidades, quer por dificuldades destas populações em chegar até aos profissionais, quer por dificuldades nos profissionais em abordar estas populações. 

    Estas populações geralmente acedem aos cuidados de saúde em fases mais avançadas de doença. Acredita-se que tal acontece por vários motivos: barreiras culturais e sociais, dificuldade em identificar os problemas de saúde devido a crenças de saúde, religiosas ou políticas; crenças de que os serviços não estão disponíveis ou barreiras comunicacionais. 

    É, portanto, essencial que seja promovida a acessibilidade a cuidados de saúde culturalmente competentes e em tempo útil. 

    Alguns fatores que poderão contribuir são: 

    • Dar a conhecer a rede de cuidados de saúde e garantir acesso a cuidados de saúde primários e, se necessário, secundários.
    • Comunicação eficaz através de informação sobre os vários serviços providenciada em vários idiomas e existência de intérpretes e tradutores disponíveis para auxiliar os serviços. 
    • Literacia em saúde, através da existência de programas de integração que promovam iniciativas que fomentem conhecimentos sobre saúde e doença, funcionamento dos serviços de saúde, como usá-los e quando usá-los. É importante notar que para aceder aos serviços de saúde são necessários, não só conhecimentos em saúde, mas também competências sociais que estes grupos marginalizados carecem. 
    • Treino de competências culturais dos prestadores de serviços, dos clínicos e das organizações. Uma forma validada para este efeito é a implementação de mediadores culturais ou consultores que atuam como agentes de disseminação de informação nas comunidades migrantes, de forma a auxiliar tratamentos, explicar conceitos médicos e ajudar os profissionais de saúde na interpretação do sofrimento no contexto social e cultural dos doentes. 

    Para saber que serviços oferecem apoio em Psiquiatria e Saúde Mental a refugiados ou migrantes em Portugal clique aqui.

  • Sessão com o Grupo de Teatro Terapêutico – “Saúde Mental”

    Sessão com o Grupo de Teatro Terapêutico – “Saúde Mental”

    O Grupo de Teatro Terapêutico convidou o Núcleo de literacia do CHPL para dinamizar duas sessões de literacia: uma sobre saúde mental e outra sobre saúde sexual. Foi uma oportunidade única para conhecermos melhor este fantástico grupo de trabalho, que celebrou recentemente o seu 50º aniversário.

    Na primeira sessão, que decorreu no passado dia 28 de março, foram dinamizadas atividades de grupo que permitiram a reflexão sobre o conceito de saúde e doença mental.  Recorrendo ao brainstorming e à seleção de objetos do quotidiano, abordámos conceitos teóricos, mitos e estereótipos. Foi possível ainda partilhar as experiências subjetivas da saúde e do adoecer mental, a esperança associada e os seus significados mais dolorosos. 

    A 4 de abril foi a vez da abordagem da sexualidade e da saúde sexual. “Despidos” de tabus e de sapatos, reunidos em pequenos grupos, foi discutida a importância da obtenção do prazer na relação sexual e a influência da sociedade naquilo que é a nossa interpretação de conceitos como o sexo, o género, a identidade de género ou a orientação sexual. A criatividade e generosidade dos membros do Grupo deram luz a uma sessão de interpretações, de faz-de-conta e de aprendizagem para todos, de igual para igual, que culminou numa experiência única e de absoluta conexão entre pessoas.

    O núcleo de Literacia agradece a disponibilidade e o convite do Grupo de Teatro Terapêutico, fazendo votos de muito sucesso para os futuros projetos